
Conheci-a na chuva torrencial. Ela procurava um lugar pra se abrigar, e por coincidência ou destino, abrigou-se em meu bar. Pediu uma dose de conhaque e tirou o sobretudo. Por baixo, a blusa rendada e a calça jeans apertada, imaginei-me em seus braços, em sua carne, em suas colchas mal lavadas, perguntei seu nome. Chamava-se Láska,tradução: amor, vinha do Tcheco. O pai dela era bilingue, e isso, só soube na segunda noite em que nos vimos. Ela usava um vestido vermelho esvoaçante, os cabelos lisos, negros, sedosos, e as mãos quentes passeando pelo meu rosto. Ela tinha fome, não de pessoas, ou de sentimentos, tinha fome dela mesma. Queria alimentar-se sozinha, cheia de ideais, alimentar o mundo. Enquanto eu só queria que ela alimentasse-me.
Não fora amor a primeira vista, não.Essa coisa ai não existe, o que existe é atração formal, cheia de terceiras intenções. A primeira vista só física, depois da décima ou centésima, é que se vê a química. Essa tal química, ou faíscas, que falam quando você encontra a pessoa perfeita. Quando, de repente, você vê tudo diferente, e sente diferente. E é nessa hora que você se dá conta que se apaixonou.
Na quarta semana ela estava usando minha camisa do Ramones e cantava “I wanna be your boyfriend”, como se indiretamente dissesse que queria que eu lhe fosse aquilo. Não tinha morada certa, era garota de lugar nenhum, e eu, era garoto dela.Foi mais ou menos nessa época que me dei conta do amor que não me cabia. Quando o caminhão de mudança estacionou na frente de casa, derrubando o hidrante, espalhando água por todos os cantos, inclusive pelos cabelos negros dela. Naquela hora, foi mesmo, foi sim, eu vi que aquela garota era perfeita. Ao menos pra mim.
Chamei-a pra morar comigo.Sem gracejos, talvez como amigos… Mesmo no fundo de minh’alma querendo ser algo mais.
Ela queria uma lareira, e eu querendo falar besteira, ao pé de seu ouvido, sem medo nem perigo, ela assentia com tudo que eu fazia, e eu me sentia inteiramente dela feito um bêbado que anda pelas ruas,bêbado equilibrista que deixa almas nuas.
Um dia, meio assim, ela foi embora.O sol lá fora nascia. Ela, com o mesmo sobretudo e a blusa de rendas dava as costas, com um copo de café nas mãos. Por coincidência ou destino, acabei sentado, chorando, escrevendo meu desatino. Láska não era sinônimo de amor, Láska era sinônimo de dor… E afinal,dor de amor não é amor?., Tamires C
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